Educação e Sociedade em Rede

A Abertura da Educação para o Bem Comum: Práticas Transformadoras

A educação aberta configura-se como um paradigma fundamental para a construção de sociedades mais justas, equitativas e democráticas . Conforme definido pelo Quadro OpenEdu da Comissão Europeia, a educação aberta é “uma forma de concretizar a educação, que utiliza frequentemente tecnologias digitais” e “tem por objetivo alargar o acesso e a participação a todos, suprimindo obstáculos e tornando a aprendizagem acessível, numerosa e personalizável para todos”.

Democratização do Conhecimento e Justiça Social

A abertura educativa constitui um instrumento privilegiado para promover o Bem Comum ao democratizar o acesso ao conhecimento científico e educativo, transformando-o num verdadeiro bem público acessível a todos, independentemente de barreiras económicas, geográficas ou sociais. A UNESCO, na sua Recomendação sobre Recursos Educacionais Abertos de 2019, reconhece que “os REA podem apoiar uma educação de qualidade que seja equitativa, inclusiva, aberta e participativa, bem como aumentar a liberdade académica e a autonomia profissional dos professores, alargando o âmbito dos materiais disponíveis para o ensino e aprendizagem”.​

Este paradigma assume particular relevância num contexto em que as desigualdades educativas continuam a reproduzir segmentações sociais e a limitar oportunidades de desenvolvimento. A educação aberta, ao remover obstáculos económicos, tecnológicos, geográficos e institucionais, contribui para a inclusão social, equidade de género e para o ensino de pessoas com necessidades específicas.​

Os Três Casos Revisitados: Impacto Social e Bem Comum

1. MIT OpenCourseWare: Democratização Global do Conhecimento de Elite

O MIT OpenCourseWare representa um exemplo paradigmático de como instituições de elite podem contribuir para o Bem Comum através da partilha aberta. Esta iniciativa não se limita a disponibilizar conteúdos; democratiza o acesso a conhecimento de excelência, tradicionalmente reservado a uma pequena elite académica com recursos para frequentar uma das universidades mais prestigiadas do mundo.​

Impacto documentado na equidade educativa:

  • A diversidade geográfica dos utilizadores evidencia a dimensão global do impacto: 45% da América do Norte, 19% da Europa Ocidental, 18% da Ásia Oriental, demonstrando que o conhecimento transcende fronteiras​
  • Mais de 32% dos visitantes eram estudantes autodirigidos, pessoas que procuram conhecimento de forma autónoma, sem estarem inseridas em contextos formais de educação​
  • Entre os educadores, a maioria (cerca de 88%) indicou que utilizava os materiais para autoaprendizagem e desenvolvimento profissional, demonstrando o impacto na formação contínua​

Contribuição para o Bem Comum: O MIT OCW transforma conhecimento institucional em património comum da humanidade, permitindo que professores em países em desenvolvimento, estudantes sem recursos financeiros e aprendentes ao longo da vida acedam gratuitamente a materiais que, de outra forma, estariam comercialmente protegidos.​​

2. BCcampus Open Textbook Project: Redução da Exclusão Económica

O projeto de manuais abertos do BCcampus ataca diretamente uma das principais barreiras à equidade educativa: o custo dos materiais didáticos. Esta iniciativa representa uma mudança de paradigma ao considerar os recursos educacionais como bens comuns que devem ser financiados publicamente e disponibilizados gratuitamente.​​

Impacto documentado na equidade económica:
Investigação recente demonstra que a adoção de REA tem impacto diferenciado, beneficiando especialmente estudantes economicamente desfavorecidos. Colvard, Watson e Park (2018) examinaram 21.822 estudantes e descobriram que a adoção de REA não só reduziu a dívida estudantil, como levou a melhores notas finais e redução das taxas de reprovação e abandono (DFW). Estes ganhos foram ainda mais pronunciados para beneficiários de bolsas Pell, estudantes a tempo parcial e populações historicamente sub-representadas, demonstrando o potencial dos REA para reduzir lacunas de desempenho académico.​

Contribuição para o Bem Comum: Ao eliminar a decisão que muitos estudantes desfavorecidos enfrentam entre comprar livros ou pagar outras despesas essenciais como alimentação, transporte ou habitação, os REA promovem justiça educativa, assegurando que todos os estudantes, independentemente da sua situação financeira, acedam a materiais de qualidade desde o primeiro dia de aulas.​

3. OER Africa: Educação Aberta como Reparação Histórica

A OER Africa exemplifica como a educação aberta pode ser um instrumento de justiça social e reparação de desigualdades históricas. Fundada em 1992 para abordar as desigualdades educativas na África do Sul pós-apartheid, esta rede expandiu-se para todo o continente africano, reconhecendo a educação como veículo de transformação social.​​

Impacto documentado na equidade regional:

  • A African Health OER Network fornece recursos abertos para educação em saúde em contextos onde a escassez de materiais educativos é crítica​​
  • O projeto AgShare disponibiliza recursos educacionais para agricultura, sector vital para as economias africanas​
  • A adoção de políticas institucionais abertas, como a licença CC BY padrão na Kwame Nkrumah University of Science and Technology, institucionaliza a abertura como valor fundamental​​

Contribuição para o Bem Comum: A OER Africa demonstra como a educação aberta pode abordar desigualdades estruturais e históricas, promovendo a autonomia das instituições africanas na produção e disseminação do conhecimento, quebrando dependências de materiais educativos produzidos no Norte Global.​

Educação Aberta e os Pilares do Bem Comum

A análise destas três práticas revela cinco dimensões fundamentais através das quais a educação aberta contribui para o Bem Comum:

1. Acesso Universal e Inclusão

A educação aberta suprime ou reduz obstáculos económicos, tecnológicos, geográficos e institucionais que dificultam o acesso ao conhecimento . Ao disponibilizar materiais adaptados para pessoas com necessidades específicas (como alunos surdos, cegos ou com mobilidade reduzida) e em múltiplos formatos e línguas, promove uma educação verdadeiramente inclusiva.

2. Equidade e Redução de Desigualdades

Os REA têm impacto particularmente significativo em estudantes economicamente desfavorecidos, beneficiários de bolsas e populações historicamente sub-representadas. Um estudo em Antígua e Barbuda demonstrou que a utilização de REA não só ajudou estudantes a poupar dinheiro, como melhorou as pontuações em aproximadamente 5,5%.​

3. Colaboração e Inteligência Coletiva

A produção colaborativa facilitada pelos REA é participativa e igualitária, valoriza a educação pública, quebra oligopólios editoriais e permite uma mudança radical no processo de produção do conhecimento. Esta dimensão conecta-se diretamente com o conceito de inteligência coletiva abordado por Pierre Lévy na obra “Cibercultura”.​

4. Sustentabilidade e Bem Público

A educação aberta configura-se como investimento no futuro, não apenas de nações individuais, mas para o desenvolvimento sustentável global. Governos como Maurícia adotaram políticas nacionais de REA em 2022, reconhecendo a educação aberta como “bem público” disponível para uso conjunto e infactível para a exclusão de muitos.

5. Transformação Social e Consciência Crítica

Na perspetiva freiriana, a educação transformadora relaciona-se com a capacidade do ser humano em indagar as injustiças sociais através do processo de conscientização. A educação aberta, ao ampliar oportunidades de aprendizagem crítica e reflexiva, fortalece a autonomia dos aprendentes e a inovação coletiva.​

Desafios e Mudança de Mentalidade

A concretização plena do potencial da educação aberta para o Bem Comum exige uma mudança de mentalidade a múltiplos níveis . Para os académicos, implica superar inseguranças relacionadas com a abertura a públicos diversificados e desenvolver competências digitais para criar e partilhar REA . Para as instituições, requer investimento em infraestruturas, formação e políticas que apoiem práticas abertas . Para a sociedade, implica reconhecer e valorizar formas menos tradicionais de educação que, embora diferentes no formato e nos métodos, não são inferiores em termos de resultados de aprendizagem .

Conclusão: Universal sem Totalidade

Retomando o conceito de Pierre Lévy de “universal sem totalidade”, a educação aberta configura-se como um movimento que promove a interligação global sem controlo centralizado, permitindo que o conhecimento circule livremente, seja apropriado localmente e transformado de acordo com contextos específicos. As três práticas analisadas demonstram como a educação aberta, cumprindo os critérios 5R de Wiley, não apenas dissemina conhecimento, mas transforma-o em bem comum, contribuindo para sociedades mais justas, equitativas e democráticas.​


Fontes e Leituras Recomendadas

Documentos Institucionais

Comissão Europeia

  • Inamorato dos Santos, A. (2022). Orientações práticas sobre educação aberta para académicos: Modernização do ensino superior através de práticas educativas abertas (Trad. Fundação Universia). Comissão Europeia, Centro Comum de Investigação. (Original publicado em 2019). Disponível em: https://www.metared.org/content/dam/metared/pdf/GuiaEducaçãoAberta2022.pdf

UNESCO

Estudos de Caso e Investigação

MIT OpenCourseWare

OER Cases Studies

Investigação sobre Impacto e Equidade

Impacto em Estudantes Desfavorecidos

Educação Aberta e Bem Comum

Perspetivas Teóricas

Contexto Português e Lusófono

Justiça Social e Desigualdades Educativas

Recursos sobre os 5R de David Wiley

Publicado por Raquel Santos

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