Aprender no Horizonte: A Reconfiguração Ecológica da Aprendizagem na Sociedade em Rede

No âmbito da atividade 7 da unidade curricular Educação e Sociedade em Rede, fomos convidados à reflexão e ao debate sobre o futuro da aprendizagem. Este artigo pretende aprofundar esta reflexão, levantando as questões que mais se impõem na era contemporânea., com o olhar no futuro.
Há vinte anos, quem imaginaria que uma estudante em Lisboa poderia construir conhecimento em rede com colegas dispersos por três continentes, acedendo a repositórios abertos, participando em fóruns assíncronos e mobilizando inteligência artificial como parceira de reflexão? A pergunta que orienta esta atividade, Porque, onde e como iremos aprender?, não admite respostas lineares. Exige, antes, que pensemos a aprendizagem como um fenómeno ecológico, dinâmico e profundamente imbricado nas transformações culturais da sociedade em rede.
Da metáfora industrial à ecologia da aprendizagem
Durante mais de um século, os sistemas educativos operaram segundo uma lógica que Pierre Lévy (1999) classificaria como herdeira da era industrial: espaços fixos, tempos uniformes, saberes compartimentados e uma relação vertical entre quem ensina e quem aprende. Ora, a sociedade em rede, tal como Castells (2002) a concebeu, não representa apenas uma evolução tecnológica; representa uma nova morfologia social, na qual os fluxos de informação reorganizam as próprias estruturas de associação humana.
Se a rede é a nova arquitetura social, então a aprendizagem do futuro não pode continuar a habitar apenas as paredes da instituição. Começa a desenhar-se aquilo que vários autores designam por ecologia da aprendizagem (Barron, 2006; Jackson, 2013), um ecossistema onde contextos formais, não formais e informais se entrelaçam, onde o aprendente se move entre plataformas, comunidades e experiências com uma fluidez que desafia as fronteiras tradicionais da escola e da universidade.
O EDUCAUSE Horizon Report de 2024 confirma esta tendência ao identificar como uma das macro tendências sociais mais significativas a exigência crescente dos estudantes por acesso à aprendizagem a qualquer hora e em qualquer lugar (EDUCAUSE, 2024). Não se trata de um capricho geracional, mas de uma reconfiguração profunda do modo como os seres humanos se relacionam com o conhecimento numa sociedade onde, como Lévy (1999) antecipou, a maior parte das competências adquiridas no início de uma carreira serão obsoletas no seu termo.
A reflexão proposta no vídeo The Future of Learning (2014) é particularmente esclarecedora a este respeito, ao propor uma transição conceptual decisiva: da era da informação para a era da aprendizagem. Esta distinção é fundamental. Se a era da informação se centrava no acesso e no processamento de dados, a era da aprendizagem centra-se na capacidade do ser humano transformar informação em conhecimento significativo, em contextos colaborativos e personalizados. A educação tradicional, assente na memorização a partir de fontes únicas e na avaliação uniforme, revela-se cada vez mais desadequada a este novo paradigma.
O onde: a desterritorialização do saber
A questão do onde aprendemos está a sofrer uma mutação radical. O Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta (Pereira et al., 2007) foi pioneiro ao reconhecer que a aprendizagem de qualidade pode ocorrer inteiramente em ambientes virtuais, desde que sustentada por princípios sólidos: a centralidade do estudante, o primado da flexibilidade, a interação e a inclusão digital.
No entanto, o futuro aponta para algo que vai além do campus virtual tal como o conhecemos. A aprendizagem desterritorializa-se em múltiplos sentidos. Os espaços físicos e digitais convergem em experiências híbridas, naquilo que o Horizon Action Plan de 2022 designou como hybrid learning, onde a presença física e a telepresença deixam de ser opostas para se tornarem complementares (Robert & Pelletier, 2022). Simultaneamente, plataformas abertas, MOOCs, comunidades de prática online e até redes sociais constituem-se como espaços legítimos de construção de saber.
Lévy (1999) já o havia intuído ao descrever o ciberespaço como um dispositivo de comunicação interativa e comunitária que se apresenta como um dos instrumentos privilegiados da inteligência coletiva. O desafio não reside na tecnologia em si, mas na nossa capacidade de a habitar com intencionalidade pedagógica. Como advertiu Teixeira (2012) no texto fundador desta unidade curricular, to be or not to be on the Internet só é decisivo se soubermos como lá estar.
O como: da transmissão à co-construção algorítmica
A revolução mais profunda, porém, está no como. O Horizon Report de 2024 dedica atenção significativa à inteligência artificial generativa, identificando como práticas-chave a necessidade de encontrar usos apropriados para a tecnologia habilitada por IA e de promover a fluência em IA (EDUCAUSE, 2024). Isto altera radicalmente a pedagogia.
Mas a transformação do como não se esgota na inteligência artificial. O vídeo The Future of Learning (2014) sublinha uma mudança igualmente fundamental: a passagem de um modelo de transmissão vertical para uma aprendizagem genuinamente entre pares (peer-to-peer), potenciada por plataformas de comunicação global e ferramentas de análise colaborativa. Nesta lógica, a tecnologia não serve apenas para entregar conteúdos de forma mais eficiente, mas para criar espaços onde o erro é valorizado como motor de aprendizagem, onde se aprende tanto com os fracassos como com os sucessos, e onde cada aprendente tem a oportunidade de explorar e desenvolver os seus talentos singulares. A diversificação das métricas de avaliação torna-se, assim, uma condição essencial: não basta medir o que o estudante sabe reproduzir, é preciso compreender como constrói sentido a partir da sua experiência.
O aprendente do futuro não será apenas um consumidor de conteúdos nem um mero participante em comunidades de prática. Será um co-construtor de conhecimento em diálogo com agentes humanos e não humanos. A aprendizagem cooperativa que Lévy (1999) propunha, na qual as árvores de conhecimento permitem gerir dinamicamente as competências de uma comunidade, encontra agora uma materialização imprevista: sistemas de IA que personalizam percursos, tutores virtuais que dialogam com o aprendente, e ferramentas generativas que amplificam a capacidade de produção intelectual.
Contudo, esta transformação comporta riscos que não podem ser minimizados. O mesmo Horizon Report alerta para a necessidade de navegar a desinformação e proteger a privacidade dos dados, questões que se tornam particularmente agudas quando algoritmos medeiam a relação com o saber. Há um perigo real daquilo que podemos designar como delegação cognitiva prematura: a tentação de transferir para a máquina não apenas as tarefas mecânicas, mas o próprio esforço de pensamento crítico que constitui o cerne da aprendizagem.
O porquê: aprender como ato de cidadania digital
A resposta à questão do porquê talvez seja a que menos mudou, e a que mais precisa de ser reafirmada. Aprendemos porque somos seres constitutivamente inacabados, como diria Paulo Freire, e porque a complexidade crescente do mundo exige uma atualização contínua das nossas capacidades de compreensão e ação. Como o vídeo The Future of Learning (2014) nos recorda, até os maiores especialistas nos seus campos continuam incessantemente a procurar conhecimento e aperfeiçoamento, e são precisamente os indivíduos mais apaixonados que tendem a persistir nos seus interesses, alcançando níveis mais profundos de mestria e realização. A aprendizagem ao longo da vida não é um slogan institucional; é a condição existencial de quem habita uma sociedade em permanente reconfiguração.
O que muda é o enquadramento. Na sociedade em rede, aprender é um ato de cidadania digital. O Plano de Ação para a Educação Digital da União Europeia (2021-2027) reconhece-o explicitamente ao propor como prioridade estratégica o reforço das competências digitais para a era digital, incluindo a literacia em IA e o combate à desinformação (Comissão Europeia, 2020). Aprender no futuro significará, cada vez mais, desenvolver a capacidade de navegar criticamente num oceano de informação, distinguir o sinal do ruído, e participar de forma ética na produção coletiva de conhecimento.
Para uma pedagogia da presença consciente
Ao refletir sobre o futuro da aprendizagem, resisto à tentação de um otimismo tecnológico ingénuo, mas recuso igualmente o pessimismo nostálgico. A sociedade em rede está a transformar a educação de formas que ainda mal conseguimos cartografar. Os espaços, os tempos e os modos de aprender estão em mutação acelerada. Contudo, no centro de toda esta transformação permanece algo de irredutível: a experiência humana de aprender, com as suas dúvidas, as suas descobertas, os seus momentos de desconforto produtivo.
O futuro da aprendizagem será, provavelmente, mais distribuído, mais personalizado e mais mediado tecnologicamente do que nunca. Mas a sua qualidade dependerá da nossa capacidade de cultivar aquilo que arrisco chamar uma pedagogia da presença consciente: a arte de estar verdadeiramente disponível para o outro, seja esse outro um colega, um professor, um texto ou até uma inteligência artificial, com abertura crítica, curiosidade intelectual e responsabilidade ética.
Como estudante do Mestrado em Pedagogia do eLearning na Universidade Aberta, vivo esta tensão diariamente. O modelo pedagógico virtual desta instituição, com a sua ênfase na flexibilidade, na interação e na inclusão, oferece-me já um vislumbre desse futuro. E talvez a melhor forma de o preparar não seja prever o que virá, mas aprender a habitar a incerteza com lucidez, sabendo que, como escreveu o Reitor Carlos Reis no prefácio do Modelo Pedagógico, “dos resultados falará o futuro”.
Referências
Barron, B. (2006). Interest and self-sustained learning as catalysts of development: A learning ecology framework. Human Development, 49(4), 193–224. https://doi.org/10.1159/000094368
Castells, M. (2002). A era da informação: Economia, sociedade e cultura. Vol. 1: A sociedade em rede. Fundação Calouste Gulbenkian.
Comissão Europeia. (2020). Plano de Ação para a Educação Digital 2021-2027. https://education.ec.europa.eu/pt-pt/focus-topics/digital-education/action-plan
EDUCAUSE. (2024). 2024 EDUCAUSE Horizon Report: Teaching and learning edition. EDUCAUSE. https://www.educause.edu/horizon-report-teaching-and-learning-2024
The Future of Learning [Vídeo]. (2014). YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=ejv4TFfE8vE
Jackson, N. J. (2013). The concept of learning ecologies. In N. J. Jackson & G. B. Cooper (Eds.), Lifewide learning, education and personal development (e-book). http://www.lifewideebook.co.uk/
Lévy, P. (1999). Cibercultura. Instituto Piaget.
Pereira, A., Quintas-Mendes, A., Morgado, L., Amante, L., & Bidarra, J. (2007). Modelo pedagógico virtual da Universidade Aberta: Para uma universidade do futuro. Universidade Aberta.
Robert, J., & Pelletier, K. (2022). 2022 EDUCAUSE Horizon Action Plan: Hybrid learning. EDUCAUSE. https://www.educause.edu/horizon-report-teaching-and-learning-2022
Teixeira, A. M. (2012). Educação e Sociedade em Rede: Natureza e conceito fundador [Documento de apoio à UC]. Universidade Aberta.


