Da Prática ao Problema: Investigar a Própria Experiência

Há uma estranheza produtiva em transformar quinze anos de experiência profissional no objeto de uma investigação académica. É esse o exercício que o Tema 1 da Unidade Curricular de Metodologia de Projetos em eLearning me propôs, e que, olhando para trás, se revelou muito mais exigente, e muito mais enriquecedor, do que esperava.
O Problema de Saber Demasiado
A minha primeira tentação foi precisamente a que Miranda e Cabral (2012) alertam como um risco metodológico central: a de partir das minhas convicções profissionais como se fossem já dados validados. Conheço o setor da tradução audiovisual por dentro. Conheço as ferramentas, os clientes, as resistências e as pressões. Mas saber algo por experiência não é o mesmo que ter demonstrado que esse problema existe com a generalidade e a urgência que justificam uma intervenção educativa formal.
O processo de formulação do problema obrigou-me a fazer uma distinção que, dito assim, parece simples, mas que na prática exige uma disciplina intelectual considerável: separar o que sei do que posso argumentar com base em evidências. A distinção entre os três critérios de Miranda e Cabral (2012), clareza, exequibilidade e pertinência, não é apenas uma grelha burocrática de avaliação. É uma ferramenta de pensamento que me forçou a perguntar, repetidamente: este problema é claro para quem não vive no setor? É possível resolvê-lo com os recursos de um projeto de mestrado? E há literatura que confirme que este problema existe para além da minha perceção individual?
O Valor do Olhar Externo
A discussão em fórum foi, inesperadamente, o momento mais produtivo deste tema. Os comentários da Júlia Reis e do Sérgio Trigo introduziram ângulos que a proximidade ao objeto não me permitia ver com facilidade. O Sérgio identificou a lacuna nos Translation Studies (a ausência de fundamentos disciplinares específicos na área da formação em pós-edição) que, do meu ponto de vista de praticante, eu simplesmente não sentia como ausência, precisamente porque o conhecimento disciplinar estava incorporado na minha prática. A Júlia assinalou a necessidade de operacionalizar o conceito de “integração crítica”, lembrando-me que o que é óbvio para quem vive no terreno não é necessariamente óbvio para quem vai avaliar o projeto ou frequentar a formação.
Esta experiência confirmou aquilo que o conectivismo de Siemens (2005) e Downes (2012) argumenta teoricamente: o conhecimento não reside apenas no indivíduo, mas nas ligações entre perspetivas. A aprendizagem mais significativa deste tema não aconteceu nas leituras, aconteceu na troca.
O Que Fica para os Próximos Módulos
Entro no Módulo 2 com uma formulação do problema que considero robusta, mas consciente de que precisa de ser validada empiricamente. A Revisão Sistemática da Literatura será o momento de confirmar (ou questionar) se a lacuna formativa que identifico com base na experiência é, de facto, documentável e generalizável. É esse o próximo teste à solidez da proposta.
O posicionamento de investigadora-praticante é uma vantagem metodológica real, mas é também uma responsabilidade acrescida de reflexividade. A proximidade ilumina; mas pode também cegar. Manter essa tensão produtiva consciente é, talvez, o maior desafio dos meses que se seguem.
Ensaio-Critico-Formulacao-do-Problema-Raquel-Santos


