Materiais e Recursos para eLearning

REA na Prática: reflexão sobre a criação de um mini-curso para professores

Link para o Mini-Curso REA

Introdução

No âmbito da Unidade Curricular de Materiais e Recursos para E-learning (MReL), integrada no Mestrado em Pedagogia do E-learning da Universidade Aberta, fomos desafiados a conceber e publicar um Recurso Educacional Aberto (REA) original para a exposição virtual «O presente e o futuro da educação online: perspetivas e desafios». A tarefa, desenvolvida em parceria, implicou não apenas a produção do recurso em si, mas também uma reflexão contínua sobre o processo de criação, as decisões tomadas e os fundamentos que as sustentaram.

Este texto constitui o registo reflexivo desse percurso. Nele, procuramos dar conta das motivações que nos levaram a escolher o formato e o tema do nosso REA, das fases de preparação e desenvolvimento, dos desafios enfrentados e das aprendizagens que daí resultaram.

Porquê um mini-curso sobre REA?

A escolha do tema não foi casual. Ao longo do mestrado, fomos tomando consciência de que o conceito de Recurso Educacional Aberto, apesar de ser amplamente discutido na literatura académica e nos documentos de referência da UNESCO (nomeadamente a Recomendação sobre REA de 2019), permanece pouco difundido entre os professores do ensino básico e secundário em Portugal. Muitos docentes desconhecem que existem repositórios de qualidade com materiais gratuitos e legalmente reutilizáveis, e aqueles que os conhecem nem sempre sabem como adaptar esses recursos ao seu contexto ou como licenciar os seus próprios materiais para partilha.

Pareceu-nos, por isso, que seria pertinente e socialmente útil criar um recurso que fizesse a ponte entre o conhecimento académico sobre REA e a prática quotidiana do professor. Não queríamos um recurso meramente informativo; queríamos algo prático, acessível e orientado para a ação, que permitisse a um docente, em pouco tempo, compreender o essencial sobre REA e começar a utilizá-los nas suas aulas.

A escolha do formato: vídeo e página web

A decisão de produzir um mini-curso em vídeo, acompanhado de uma página web de suporte, resultou de uma ponderação sobre o público-alvo e os seus hábitos de consumo de conteúdos. Sabíamos que os professores dispõem de pouco tempo livre e que valorizam recursos que possam ser consultados ao seu próprio ritmo. O vídeo, pela sua natureza multimodal, permite combinar explicação verbal, demonstração visual e exemplos concretos num formato compacto e envolvente. A página web, por sua vez, funciona como ponto de entrada e agregador, oferecendo uma visão de conjunto do curso, acesso direto aos vídeos, ligações para repositórios recomendados e as referências bibliográficas que sustentam o conteúdo.

Optámos por alojar os vídeos no Google Drive e por criar uma página HTML autónoma, que pode ser publicada em qualquer servidor ou blog sem dependências externas. Esta opção garante a acessibilidade do recurso e a sua portabilidade, dois princípios que consideramos essenciais num REA.

Estrutura do mini-curso

O mini-curso foi organizado em quatro módulos, cada um correspondendo a um vídeo, numa progressão lógica que parte do conceito e avança até à prática:

Módulo 1 — O que são REA e porquê utilizá-los? Neste módulo introdutório, definimos o conceito de Recurso Educacional Aberto, enquadramo-lo historicamente (desde a primeira utilização do termo pela UNESCO em 2002 até à Recomendação de 2019) e apresentamos as vantagens da sua utilização tanto para professores como para alunos. O objetivo era criar uma base de compreensão sólida que motivasse os docentes a explorar os módulos seguintes.

Módulo 2 — Onde encontrar REA de qualidade? Partindo do princípio de que saber o que são REA não basta se não se souber onde encontrá-los, este módulo oferece uma visita guiada aos principais repositórios: a Khan Academy (com versão em português), a Casa das Ciências (repositório português com recursos validados por pares), o OER Commons e o MIT OpenCourseWare, entre outros. Incluímos também orientações sobre como avaliar a qualidade e a adequação dos recursos encontrados.

Módulo 3 — Como adaptar e utilizar um REA na prática? Este é, talvez, o módulo mais operacional do curso. Nele, demonstramos como um professor pode pegar num recurso aberto e transformá-lo num material à medida da sua turma: traduzir, editar, remisturar e integrar diretamente no plano de aula. Quisemos mostrar que a adaptação de um REA não exige competências técnicas avançadas e que, na maioria dos casos, bastam ferramentas simples e acessíveis.

Módulo 4 — Licenças Creative Commons O último módulo aborda um aspeto que consideramos frequentemente negligenciado: a importância de licenciar os recursos que se criam. Concebemos este vídeo como um tutorial prático que ensina os professores a aplicar uma licença Creative Commons aos seus próprios materiais, de modo a que outros colegas os possam reutilizar, adaptar e redistribuir legalmente. Entendemos que a cultura de partilha só se torna sustentável quando os docentes não são apenas consumidores, mas também produtores e distribuidores de REA.

Fase 1: preparação e prospeção (13 a 27 de janeiro)

A primeira fase do trabalho foi dedicada à exploração e à planificação. Começámos por revisitar a literatura sobre REA abordada ao longo do mestrado, com particular atenção para as obras de referência como o guia básico de Butcher (2015) publicado pela UNESCO e o modelo dos 5R de Wiley (2014), que define as cinco permissões fundamentais dos conteúdos abertos: reter, reutilizar, rever, remisturar e redistribuir.

Em paralelo, explorámos diversas ferramentas e serviços que poderiam apoiar a produção do nosso REA. Experimentámos diferentes abordagens para a criação dos vídeos, testámos plataformas de edição e de publicação, e investigámos as possibilidades oferecidas por ferramentas de inteligência artificial, nomeadamente o Claude (Anthropic) e o NotebookLM (Google), que se revelaram particularmente úteis em diferentes etapas do processo.

Foi também nesta fase que definimos a estrutura do curso, a divisão em quatro módulos e o tom que pretendíamos adotar: acessível, direto e orientado para a prática, sem sacrificar o rigor conceptual. A proposta de trabalho foi partilhada no Fórum de Apoio à Atividade 3, onde recebemos feedback que nos ajudou a afinar alguns aspetos do plano inicial.

Fase 2: desenvolvimento e publicação (28 de janeiro a 18 de fevereiro)

A segunda fase foi a mais intensiva e também a mais gratificante. O desenvolvimento do REA implicou um trabalho simultâneo em duas frentes: a produção dos vídeos e a criação da página web.

Produção dos vídeos

A produção dos quatro vídeos constituiu o núcleo do trabalho. Para cada módulo, elaborámos primeiro um guião detalhado, que foi depois revisto e refinado com o apoio de ferramentas de IA. O NotebookLM revelou-se um aliado valioso na fase de investigação e síntese de conteúdos, permitindo-nos organizar e cruzar informações provenientes de múltiplas fontes de forma eficiente. Procurámos manter uma linguagem clara e acessível, evitando jargão desnecessário sem, contudo, simplificar em excesso os conceitos abordados.

Uma das decisões mais relevantes prendeu-se com a duração dos vídeos. Sabendo que a atenção do espetador tende a diminuir significativamente após os primeiros minutos, optámos por manter cada módulo tão conciso quanto possível, focando-nos no essencial e remetendo para os repositórios e referências bibliográficas quem pretendesse aprofundar os temas.

Criação da página web

A página web foi concebida como uma interface limpa, profissional e responsiva, capaz de funcionar como ponto de acesso único ao mini-curso. A sua construção foi feita em HTML, CSS e JavaScript, com o apoio do Claude, que nos permitiu iterar rapidamente sobre o design e a estrutura da página.

A página inclui uma secção de apresentação do curso, os quatro módulos com os respetivos vídeos incorporados diretamente (via iframe do Google Drive), uma seleção de repositórios REA recomendados com ligações diretas, a identificação dos autores e uma secção dedicada à licença. Adicionámos também um painel de referências bibliográficas formatadas segundo as normas APA 7.ª edição, acessível através de um botão interativo.

Um aspeto que nos pareceu particularmente importante foi o de garantir que o próprio mini-curso fosse, ele mesmo, um Recurso Educacional Aberto. Por essa razão, licenciámos todo o conteúdo sob Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY), a licença mais permissiva, que permite a qualquer pessoa copiar, redistribuir, remisturar e criar a partir do nosso trabalho, desde que nos atribua o devido crédito. Esta decisão não foi meramente formal: entendemo-la como uma questão de coerência. Seria contraditório criar um curso sobre REA que não fosse, ele próprio, aberto.

Desafios e decisões

Ao longo do processo, confrontámo-nos com diversas questões que exigiram decisões ponderadas.

A primeira prendeu-se com o equilíbrio entre abrangência e profundidade. Quatro vídeos curtos não permitem abordar exaustivamente todos os aspetos dos REA. Foi necessário selecionar os tópicos mais relevantes para o nosso público-alvo e aceitar que o curso funciona como uma porta de entrada, não como um tratado completo. Esperamos que, ao despertar o interesse dos professores, o curso os motive a aprofundar os temas por conta própria.

Outra questão relevante foi a utilização de ferramentas de inteligência artificial na produção do REA. Desde o início, assumimos esta utilização de forma transparente, incluindo uma nota no rodapé da página web. Encaramos a IA não como substituto do trabalho intelectual dos autores, mas como ferramenta de apoio que nos permitiu ser mais eficientes na investigação, na produção de conteúdos e no desenvolvimento técnico. Todas as decisões pedagógicas e editoriais foram tomadas por nós, e o conteúdo final foi integralmente revisto e validado antes da publicação.

Por fim, a questão da acessibilidade e da portabilidade do recurso esteve sempre presente. A opção por uma página HTML autónoma, sem dependências de frameworks ou serviços proprietários, garante que o recurso pode ser facilmente alojado, copiado e adaptado por qualquer pessoa, em linha com os princípios dos 5R.

Conclusão

A criação deste mini-curso representou, para nós, muito mais do que o cumprimento de uma tarefa académica. Foi uma oportunidade de colocar em prática os princípios que estudámos ao longo do mestrado: a abertura, a partilha, a colaboração e a utilização consciente e ética da tecnologia ao serviço da educação.

Acreditamos que o recurso que produzimos pode contribuir, ainda que modestamente, para a sensibilização dos professores do ensino básico e secundário em Portugal relativamente ao potencial dos REA. Se, ao assistir ao nosso mini-curso, um único professor descobrir que pode poupar tempo utilizando recursos abertos, que pode adaptá-los livremente ao seu contexto e que pode, por sua vez, partilhar os seus próprios materiais com a comunidade educativa, teremos cumprido o nosso objetivo.

Este processo reforçou também a nossa convicção de que a educação aberta não é apenas uma questão técnica ou legal; é, acima de tudo, uma questão cultural. Exige que passemos de uma lógica de propriedade e de controlo para uma lógica de partilha e de bem comum. E esse caminho, como qualquer mudança cultural, faz-se um recurso de cada vez.


Raquel Santos e Sérgio Trigo Mestrado em Pedagogia do E-learning, Universidade Aberta, 2026


Referências

Butcher, N. (2015). A basic guide to open educational resources (OER). UNESCO & Commonwealth of Learning. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000215804

Creative Commons. (s.d.). About the licenses. https://creativecommons.org/licenses/

Hilton, J. (2020). Open educational resources, student efficacy, and user perceptions: A synthesis of research published between 2015 and 2018. Educational Technology Research and Development, 68(3), 853–876. https://doi.org/10.1007/s11423-019-09700-4

UNESCO. (2012). Declaração REA de Paris de 2012. Congresso Mundial sobre Recursos Educacionais Abertos. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000246687

UNESCO. (2019). Recommendation on open educational resources (OER). https://www.unesco.org/en/legal-affairs/recommendation-open-educational-resources-oer

Wiley, D. (2014, 5 de março). The access compromise and the 5th R. Iterating Toward Openness. https://opencontent.org/blog/archives/3221

Wiley, D. (s.d.). Defining the “open” in open content and open educational resources. https://opencontent.org/definition/

Publicado por Raquel Santos

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