Desenhar para aprender: bastidores da construção de um módulo em Moodle

Há trabalhos académicos que nos pedem leitura, análise e síntese. E há outros que, além disso, nos obrigam a tomar decisões. Este foi um desses casos. Ao desenvolver a proposta do curso Legendagem pedagógica com IA em ambientes virtuais imersivos, e em particular ao começar a estruturar o Módulo 1, percebi que não estava apenas a preencher um guião ou a organizar tópicos num LMS. Estava, na verdade, a tentar responder a uma questão mais exigente: como se desenha uma experiência de aprendizagem coerente, acessível e pedagogicamente intencional num contexto em que se cruzam educação digital, multimodalidade, inteligência artificial e ambientes imersivos?
O ponto de partida do trabalho foi a elaboração de um contrato de aprendizagem inspirado na estrutura de uma unidade curricular de referência, mas adaptado a um curso curto, aplicado e com um foco temático muito próprio. Nesse documento, o curso foi pensado para professores, formadores, designers instrucionais e estudantes interessados em acessibilidade, legendagem, IA e ambientes virtuais imersivos, assumindo desde logo que o público poderia ter competências digitais heterogéneas e, por isso, necessitaria de orientação progressiva, atividades assíncronas e apoio claro ao longo do percurso.
Essa preocupação com a progressão foi, para mim, uma das ideias mais importantes de todo o processo. Muitas vezes, quando se fala de inovação pedagógica, tende-se a valorizar a novidade tecnológica, a sofisticação das ferramentas ou a dimensão “futurista” das propostas. No entanto, ao longo deste trabalho, fui consolidando a convicção de que a inovação relevante não está em adicionar camadas de tecnologia, mas em desenhar relações coerentes entre objetivos, atividades, recursos, mediação docente e formas de participação. O próprio contrato que desenvolvi parte dessa ideia: os ambientes virtuais só se transformam em ecossistemas de aprendizagem quando articulam, de forma coerente, objetivos, interações, tempos, tecnologias e avaliação.

O momento em que o tema deixou de ser técnico
No início, eu própria sentia a tentação de pensar a legendagem sobretudo como uma questão técnica: transcrever, sincronizar, traduzir, rever. Essas dimensões existem, naturalmente, e são importantes. Mas, à medida que fui lendo, organizando os módulos e desenhando as atividades, tornou-se cada vez mais claro que a legendagem, neste contexto, precisava de ser entendida como prática pedagógica, comunicacional e inclusiva. No contrato de aprendizagem, esta ideia aparece de forma explícita: a legendagem é apresentada como prática técnica, pedagógica e inclusiva, com potencial para apoiar compreensão, acessibilidade, multimodalidade e participação em cenários virtuais e tridimensionais.
Essa mudança de olhar foi decisiva para a conceção do Módulo 1. Se o curso pretende levar os participantes a pensar criticamente o uso de legendas em ambientes online, híbridos e imersivos, então o primeiro módulo não podia começar pela ferramenta. Tinha de começar pelos fundamentos. Foi por isso que o Módulo 1 ficou centrado em educação digital, acessibilidade e ecossistemas de aprendizagem, organizando-se em torno de temas como acessibilidade audiovisual, multimodalidade, ecossistemas digitais, papel do docente como designer pedagógico e inclusão em ambientes online e híbridos.
Ao fazer esta opção, senti que estava também a recentrar o curso no que verdadeiramente interessa: antes de perguntar “como gerar legendas com IA?”, importa perguntar “para quem?”, “com que intenção?”, “em que contexto?”, “com que impacto na aprendizagem?” e “com que critérios de qualidade e inclusão?”. Foi precisamente esse deslocamento de foco (da ferramenta para a intencionalidade pedagógica) que deu consistência ao trabalho.
Do cronograma ao desenho pedagógico
Depois de definir o contrato e o roteiro de conteúdos, o passo seguinte foi transformar uma planificação geral num percurso de aprendizagem concreto. O cronograma distribuía o curso em seis semanas, com uma semana inicial de acolhimento e um foco progressivo: fundamentos no Módulo 1, IA e pós-edição no Módulo 2, ambientes imersivos no Módulo 3 e desenho da atividade final no Módulo 4. À primeira vista, parecia uma distribuição simples. Mas, na prática, obrigava a tomar várias decisões pedagógicas: o que entra em cada semana, o que fica de fora, como evitar sobrecarga, como garantir continuidade entre módulos e como traduzir tudo isto numa organização clara em Moodle.
Foi aqui que comecei a perceber que desenhar um módulo não é sinónimo de “subir materiais para a plataforma”. O Moodle, neste caso, precisava de deixar de ser um repositório de ficheiros para passar a funcionar como um ambiente de orientação e trabalho. O contrato de aprendizagem já apontava nesse sentido, ao defender um ambiente com clareza de instruções, navegação simples, organização por módulos, acessibilidade dos materiais e possibilidade de participação com baixa complexidade técnica. A partir daí, a questão deixou de ser “que PDFs vou colocar?” e passou a ser “que percurso estou a propor aos participantes?”.
Essa pergunta foi essencial para a construção do Módulo 1. Em vez de imaginar uma secção cheia de leituras dispersas, fui organizando o módulo como uma sequência com lógica própria: apresentação, resultados de aprendizagem, roteiro de trabalho, recursos, atividade prática, fórum, portefólio e espaço de dúvidas. Esta estrutura não surgiu por acaso. Ela dialoga diretamente com a metodologia de trabalho definida no contrato, que se inspira num modelo centrado na atividade do estudante, na discussão assíncrona, na produção progressiva de evidências e na construção de um portefólio digital.
Construir o Módulo 1: entre teoria, análise e prática
O desenho do Módulo 1 foi talvez a parte mais exigente e, ao mesmo tempo, mais reveladora do trabalho. Exigente, porque foi necessário transformar conceitos amplos em experiências concretas de aprendizagem. Reveladora, porque esse processo mostrou-me até que ponto a coerência pedagógica depende de pequenas decisões.
Ao selecionar os temas do módulo, a prioridade foi construir um enquadramento suficientemente amplo para sustentar os módulos seguintes. A acessibilidade audiovisual não podia ser abordada isoladamente, como se dissesse respeito apenas a estudantes com necessidades específicas. Tinha de ser relacionada com a multimodalidade, com os ambientes híbridos e com a ideia de ecossistema digital. Do mesmo modo, o papel do docente não podia aparecer apenas como alguém que “usa” ferramentas, mas como alguém que decide, estrutura, media e desenha experiências.
A partir daqui, a questão central passou a ser: como levar os estudantes a apropriarem-se destes conceitos sem cair numa abordagem excessivamente abstrata? A resposta foi combinar quatro movimentos no módulo: leitura orientada, observação de exemplos, discussão em fórum e reflexão em portefólio. Essa opção está em sintonia com o modelo geral do curso, que organiza as atividades por ciclos semanais de exploração de recursos, experimentação prática, debate e atualização do portefólio.
Foi também por isso que a atividade principal do módulo ficou centrada na análise de um recurso audiovisual legendado. Em vez de pedir uma síntese teórica sobre acessibilidade, pareceu-me mais potente propor uma tarefa de observação guiada: ver um vídeo, analisar a qualidade e a função das legendas, relacionar essa análise com as leituras e refletir sobre o que faria sentido melhorar do ponto de vista pedagógico. Esta escolha permitiu articular teoria e prática logo na primeira semana, o que me parece especialmente importante num curso aplicado.

A importância de desenhar bons dispositivos de mediação
Ao longo deste processo, fui percebendo que um módulo não vive apenas dos seus conteúdos. Vive muito dos dispositivos de mediação que o acompanham. Por isso, a criação do enunciado da atividade, do fórum, das instruções do portefólio e da grelha de observação acabou por se tornar tão importante como a seleção dos textos e vídeos.
No caso da atividade, o objetivo foi formular um enunciado suficientemente claro para orientar a análise, mas suficientemente aberto para permitir interpretação crítica. O mesmo aconteceu com o fórum. Não queria uma pergunta genérica do tipo “o que achou das leituras?”, mas antes um dispositivo que convocasse pensamento, relação entre conceitos e diálogo entre pares. Daí a formulação em torno de uma questão mais forte: será a legendagem apenas uma questão de acessibilidade ou também uma dimensão do design pedagógico? Essa pergunta pareceu-me produtiva porque obriga a sair da resposta óbvia e a pensar a legendagem como mediação da aprendizagem, da atenção e da participação.
Já o portefólio surgiu como espaço de consolidação e não apenas de registo. No contrato, o portefólio é valorizado pela qualidade das reflexões, pela coerência entre registos, pela atualização progressiva e pela integração de evidências. Isso levou-me a pensar o registo do Módulo 1 não como um resumo do que foi feito, mas como uma reflexão crítica sobre o que foi aprendido, o que mudou no olhar do participante e que implicações práticas decorrem daí para o seu próprio contexto.
A grelha de observação teve um papel particularmente interessante neste processo. À primeira vista, poderia parecer um instrumento secundário. Mas, na verdade, ela funciona como mediadora do olhar. Ao definir critérios como legibilidade, sincronização, qualidade linguística, acessibilidade, multimodalidade e coerência pedagógica, a grelha ajuda a deslocar a observação de um plano impressionista para um plano analítico. E isso, pedagogicamente, faz toda a diferença.
O que aprendi com este trabalho
Se tivesse de resumir o que este trabalho me ensinou, diria que aprendi sobretudo a diferença entre organizar conteúdos e desenhar aprendizagem. Organizar conteúdos é necessário, mas não suficiente. Desenhar aprendizagem exige pensar em percursos, em relações entre tarefas, em critérios de orientação, em dispositivos de apoio e em formas de participação. Exige também aceitar que cada decisão pedagógica transporta uma visão do que é aprender e do que conta como experiência significativa.
Aprendi também que a acessibilidade não pode entrar num curso como “tema adicional” ou como secção especializada. Quando levada a sério, ela muda o desenho do todo. Obriga a repensar recursos, formatos, linguagem, ritmo, instruções e modos de participação. No caso deste trabalho, isso tornou-se evidente logo no Módulo 1: a acessibilidade não aparece como apêndice da legendagem, mas como um dos princípios que sustentam a construção do curso desde o início.
Outro aspeto que se tornou claro para mim foi a importância de começar pelos fundamentos antes de avançar para a ferramenta. Num contexto em que a IA tende a capturar rapidamente a atenção, houve algo de metodologicamente importante em optar por um primeiro módulo centrado em educação digital, acessibilidade, multimodalidade e ecossistemas. Essa escolha cria uma base crítica para que, mais adiante, o uso de ferramentas de IA não seja visto como solução mágica, mas como possibilidade situada, limitada e pedagogicamente condicionada.
Por fim, este trabalho fez-me pensar no papel do docente de uma forma mais ampla. Ao longo da proposta, o docente aparece não como mero transmissor nem como simples utilizador de plataformas, mas como designer pedagógico de experiências. Essa formulação parece-me especialmente feliz porque reconhece a dimensão intencional, criativa e ética do trabalho docente em ambientes digitais. E talvez seja precisamente isso que este exercício mais me ajudou a compreender: planificar um módulo é, afinal, um exercício de autoria pedagógica.

Fecho
Ao terminar esta fase do trabalho, sinto que o mais importante não foi apenas ter conseguido desenhar a estrutura e os conteúdos do Módulo 1. Foi ter percebido melhor o tipo de decisões que sustentam um ambiente de aprendizagem coerente. Entre leituras, reformulações, escolhas de recursos, redação de enunciados e desenho da secção em Moodle, o processo foi mostrando que a construção de um curso é sempre mais do que uma soma de materiais. É uma arquitetura de sentido.
E talvez essa seja a ideia que mais me fica: num curso sobre legendagem pedagógica com IA em ambientes virtuais imersivos, o verdadeiro desafio não está em usar tecnologia avançada, mas em construir condições para que essa tecnologia faça sentido no interior de uma experiência de aprendizagem acessível, crítica, multimodal e humanamente orientada.


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